quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Movimento Espírita Jovem de Juiz de Fora

Juiz de Fora: cidade marcada por várias universidades, cursos, escolas, e, é claro, muitos jovens. Em uma terra com esse perfil, não é difícil encontrar grupos de juventude espírita espalhados por vários lugares, e até mesmo alguns que já somam mais de sessenta ou setenta anos de idade! Esse divertido paradoxo de um movimento de juventude septuagenário é uma marca do trabalho com a juventude da nossa cidade. A primeira mocidade de Juiz de Fora nasce em 25 de outubro de 1941, poucos anos depois da primeira mocidade espírita no país e no princípio da década em que Leopoldo Machado agitava os centros pelo Brasil com propostas de grupos de evangelização da juventude. A modesta iniciativa ganhou corpo, e, em meados de 1950, a Casa Espírita, o Grupo Garcia, o Ivon Costa e o Fé e Caridade já contavam com grupos de mocidade espírita – todos esses já com mais de sessenta anos de fundação! Com o passar dos anos, outros grupos foram surgindo nas casas espíritas de Juiz de Fora. No decorrer dessa história, muitos nomes foram imprescindíveis para a construção de grupos coesos, integrados e pautados na segurança da codificação de Kardec; muitos, incontáveis, foram essenciais para que as reuniões de mocidade tivessem a vivacidade, o sabor e a alegria própria das mesmas; inúmeros, ainda, foram aqueles que, presentes nos grupos e com amor pelas reuniões, eram o objetivo da existência das mesmas – pois, sem jovens, o que seria da mocidade? Hoje, nesta COMEJUS, jovens que ora frequentam as mocidades mais antigas trocam experiências com participantes de grupos jovens com pouquíssimos anos de fundação, como as mocidades dos centros Vida Maior, Amor e Luz e Padre Germano. Juiz de Fora tem hoje 26 grupos de mocidades espíritas, atingindo cerca de 600 jovens que optam, todas as semanas, por selecionar um dia para estudar e confraternizar à luz do espiritismo. Contamos com quatro encontros anuais de juventude, em que nos reunimos pelo estudo e pela amizade, além de seminários, eventos musicais, caravanas, piqueniques, e muito mais. A história já é longa, mas ainda está longe de ser terminada. Cada um de nós compõe um mosaico em que, embora as peças sejam frágeis sozinhas, é vivo e belo quando em conjunto; cada um de nós, nesses quatro dias, escreve um pedaço da história que será contada pelas gerações vindouras; cada um de nós faz parte de um movimento que começa quando o homem enxerga deuses na natureza num impulso pelo contato com o sagrado, elabora-se quando se percebe a grandeza de um único Deus grande e justo, ganha vida com a mensagem de supremo amor do Cristo Nazareno, atravessa os séculos e reverbera nos corações dos homens, ganhando as contribuições da codificação kardequiana e chegando ao nosso país pelas penas e vozes de grandes espíritos que nos ajudaram a ser o que somos hoje. E você, qual a história da sua mocidade? O que você pretende escrever, daqui pra frente?

domingo, 27 de janeiro de 2013

As duas ditaduras


Pode parecer estranho ao leitor confrontar-se com este título num espaço virtual no qual se discutem ideias e ocorrem divulgações relacionadas aos trabalhos das Mocidades Espíritas (ME) de Juiz de Fora. Muito esperado que surja um espantamento inicial por conta dos “arquétipos coletivos” que são sutil ou explicitamente inculcados em nós, frequentadores ou seareiros dos grupos jovens, a respeito da natureza e organização dos mesmos. Afinal, é de senso comum o entendimento das ME como locais de livre manifestação do pensamento e das opiniões, ambientes de vera fraternidade e total entrosamento dos participantes. Será mesmo?
Em virtude do paradigma imposto há tanto tempo e da visão romântica (e ingênua) do que são e de como se organizam as ME, equivocadamente analisadas fora de contexto nos Centros Espíritas e nos Movimentos Espíritas, questionar este arquétipo soa heresia (o que nos deixaria profundamente satisfeitos), atitude de menoscabo ou raivosa. Esperamos que a leitura atenta e desapaixonada das linhas seguintes afastem tais impressões e permitam o compartilhamento de uma visão crítica com interesse de promover avanços nas práticas e nas interpretações do assunto em destaque. Nos referimos especificamente à uma ideia basilar de pseudo amor, fruto da não análise sistemática e do corporativismo de muitos, a qual gerou e alimenta a Ditadura da Afinidade e a Ditadura da Simpatia.
As duas ditaduras poderiam ser consideradas como apenas uma em termos práticos e sua divisão é apenas didática, com vistas a enfatizar que a 1ª leva necessariamente à 2ª. A pressão, muitas vezes subconsciente, em criar e manter uma aproximação das pessoas a qualquer custo gera uma simpatia forçada e também invasiva, embora, a priori, bem intencionada. Faz-se mister localizar a origem deste comportamento egóico nas estruturas mesmas dos Movimentos Espíritas, os quais estão permeados de “obssessão fraternal”, fiscalização de métodos e condutas autoritárias. Tudo em prol de uma tal Unificação... Em virtude de tal interpretação imatura de Espiritismo e de Evangelho, vemos sessões de abraços constrangidos, cumprimentos mentirosos e sorrisos amarelos. É preciso estar em sintonia com todos, amar todos e manter os outros sob vigilância para que ajam nesta adequação consensual.
O leitor poderá estar questionando a argumentação com uma lembrança: ele próprio ou outrem abraça e cumprimenta espontaneamente, com prazer e alegremente. Mas tal lembrança vem corroborar a ideia central do texto. Basta um questionamento simples: todos se sentem assim confortáveis? Todos desejam abraçar / serem abraçados? Os que não desejam, são respeitados? Os que não desejam são rotulados? Eis o ponto fundamental. Uma análise honesta e uma observação acurada demonstram inexoravelmente a coerção exercida, sutilemente praticada. Passemos aos exemplos.
O jovem que chega em uma das ME deve ser recebido gentilmente, o que habitualmente se traduz por ser abraçado, mesmo contra sua vontade. Se ele passa discretamente e busca um canto pra ficar quieto, logo será buscado por alguém muito simpático que o irá retirar desta situação e dar-lhe um afetuoso abraço...  não desejado. Isso se fugir ao montinho sorridente e dedicado da galera da recepção. O que dizer das dinâmicas? Sempre dá-se um jeito de forçar os presentes ao amplexo uns com os outros. O que pensar das “sensibilizações”? (ainda estou procurando a utilidade e a seriedade delas) O tormento de ver um sujeito à frente de uma multidão, conduzindo a atividade para um climax emotivo de lágrimas, mãos dadas e abraços efusivos. Os encerramentos ou “vibrações” nas quais todos tem de se levantar ao som de músicas espíritas, darem as mãos candidamente e rodarem feito borboletas ao redor da lâmpada. E claro, sem mencionar que todas interações são absolutamente fraternais, sem nenhuma segunda intenção jamais... Os Encontros formam um capitulo especial: todo mundo feliz, se abraçando o tempo todo, abraçando todo mundo. Seja por um dia ou mais. Os eventos que ocorrem no carnaval exigem mais persistência para a maratona de contatos e sorrisos sem fim.
É um exercício oportuno e elucidativo observar as pessoas fora das reuniões das ME. São poucas as que mantêm os hábitos de abraçamento e vínculos de simpatia...  justamente aqueles com os quais naturalmente se afinizam. Curioso, não? Insistimos que o problema não está em abraçar e manter a simpatias, mas sim no seu caráter totalitário. Por isso a alcunha de ditaduras, porque fruto de imposição dogmática e falta de criticidade das práticas. A Doutrina Espírita convida nosoutros ao estabelecimento de vínculos fraternais mobilizados pela convivência, na qual construímos as afinidades e simpatias, ganhamos a confiança uns dos outros e criamos intimidades, gradual e espontaneamente. A homozeinezação de condutas é a desgraça a ser expulsa dos arraiais espiritistas, sob o sério risco de superficializar as relações. Jesus nos ensinou o amor e não o pieguismo por guia nas experiências interpessoais. Lembremos do Nazareno lidando com as criaturas, sempre amando-as em cada ocasião, seja orientando, quer advertindo, e também dialogando. Nada de emocionalismo barato mas sim conversas intestinas e honestidade equilibrada.
O acolhimento ao outro, o amar ao próximo parte do princípio de respeito ao universo do sujeito, do acatamento de sua singularidade e de seu modo de ser. Afinidades são construídas no conviver, na medida em que existem comportamentos, sonhos, vontades em comum. Impor ao outro o meu afeto é desconhecer a orietação espírita no tocante ao livre-arbítrio, tão propalado e desconsiderado... Registra-se na 3ª parte de O Livro dos Espíritos, a obra fundamental do Espiritismo, a Lei de Liberdade. Não seria coerente exercê-la também nas proprias ME? Aliás, neste mesmo livro encontramos um item de grande utilidade nesta reflexão. Vejamos:
“390. A antipatia instintiva é sempre sinal de natureza má?
´De não simpatizarem um com o outro, não se segueque dois Espíritos sejam necessariamente maus. A antipatia, entre eles, pode derivar de diversidade no modo de pensar. À proporção, porém, que se forem elevando, essa divergência irá desaparecendo e a antipatia deixará de existir.´” (grifo nosso)
A diferença de pensar e, por extensão, de agir, é comum entre as pessoas e profundamente saudável no crescimento de todos nós. Aprendemos a nos posicionar num mundo de variedades, aprendemos com as visões alheias e que divergências não significam guerras nem ódio nem desunião. Lidando com as diferenças e buscando a resolução de conflitos através de diálogos sinceros amadurecemos para o Amor incondicional ensinado pelo Cristo, sem atitudes convencionais, sem culpas, medos, repressões ou recalques. Convidamos ao leitor que pondere sobre isto e analise as vivências nas ME (e suas atividades) o que e como ocorrem os relacionamentos: na base do respeito e da liberdade? ou de maneira imposta e superficial? Partindo das observações críticas terá melhores condições de se posicionar sobre o assunto e buscar vivências coerentes com as orientações do Mundo Maior, permeadas de amor sincero e lúcido, energia e racionalidade.
Vemos com bastante frequência nas ME a indignação devido à conduta de religiosos tentando impor suas visões de mundo ou suas interpretações bíblicas em nossas portas domésticas. Nos irritamos com os grupos de abraçadores que ficam nas ruas “oferecendo” seus amplexos e pensam que a sua generosidade significa obrigação de reciprocidade. Ora, como reclamar de tais procedimentos se algo semelhante acontece nos próprios grupos? Não seria a ocasião de uma pitada de autocrítica e mudança de comportamento? Menos hipocrisia e mais autenticidade? Que tal respeitarmos (sem cara de reprovação) as opções de não contato? Que tal dar a cada um a liberdade de ser e agir conforme seu próprio temperamento? E, se você quiser aceitar, minha despedida via Gilberto Gil: “Todo o povo brasileiro / Aquele abraço!”.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Tu és o meu vaso escolhido"



"Depois disso o Senhor escolheu mais setenta e dois dos seus seguidores e os enviou de dois em dois a fim de que fossem adiante dele para cada cidade e lugar aonde ele tinha de ir. Antes de os enviar, ele disse: - A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, peçam ao dono da plantação que mande trabalhadores para fazerem a colheita. Vão! Eu estou mandando vocês como ovelhas para o meio de lobos. Não levem bolsa, nem sacola, nem sandálias. E não parem no caminho para cumprimentar ninguém. Quando entrarem numa cidade e forem bem recebidos, comam a comida que derem a vocês. Curem os doentes daquela cidade e digam ao povo dali: "O Reino de Deus chegou até vocês".
Lucas 10, 1-9.


Você já parou para pensar por que você é cristão? Por que o cristianismo encontrou agasalho tão forte em tantos lugares? Por que sobreviveu de forma tão firme através dos séculos, sendo a religião de um pequeno grupo sem poder político ou econômico?

Claro, além de ser a fé que você escolheu, há motivos muito fortes na história para isso: após o desencarne de Jesus, os 12 apóstolos experimentaram dúvidas e temores atrozes sobre como levar adiante o movimento da divulgação da Boa Nova. Viviam em um contexto em que o Cristianismo ocupava posição marginal diante do judaísmo e da religião politeísta romana, então dominantes. Era preciso muita coragem e argúcia para levar a frente os propósitos de consolo do Cristo, sem possuir a sua elevação moral e suas habilidades.

Entretanto, Jesus jamais deixou de estar entre os homens de Bem; a espiritualidade fez-se presente de forma intensa e firme, elevando os pescadores com um ruído a uma pregação cálida e intensa, em diversas línguas diferentes, arrebatando adeptos e trazendo novas almas para a sublime seara do Cristo (1)

A verdadeira fé dos discípulos levou-os a procederem curas e prodígios (2); levou-os a pregar a nova mensagem de amor e união não só na Casa em Jerusalém, mas também na região próxima e muito, muito além do que se poderia imaginar que homens simples pudessem chegar sem recursos (3).

Quando pensamos em viagens missionárias, é inevitável lembrarmo-nos de Paulo, vaso escolhido do cristo (4) e grande divulgador do Cristianismo. Ao todo, Paulo de Tarso viajou 25.000 quilômetros, sendo 11.000 por mar e o restante por terra, quase sempre a pé. Tendo fundado dezenas de comunidades cristãs, passa depois a escrever, quando necessário, cartas aos amigos e aos grupos de vivência do Evangelho, reunidas hoje no novo testamento e conhecidas como as Cartas de Paulo.

Entretanto, além de Paulo de Tarso, muitos outros foram aqueles que levaram o testemunho e a vivência de sua fé para o mundo, chegando, por vezes, a viver o martírio pelo Cristo. Pedro, pedra e líder da Casa do Caminho; Lucas, companheiro de Paulo, evangelista e narrador dos "Atos dos Apóstolos"; Timóteo, jovem trabalhador desde o início de sua puberdade; Maria Madalena, exemplo de transformação inolvidável e vivência do Evangelho; Marcos, incansável trabalhador e baluarte da comunidade de Alexandria; Joana de Cusa, cuja entrega profunda nos comove inevitavelmente até os dias de hoje; Ignácio de Antioquia, que mesmo sem ter conhecido o Cristo fez-se intenso trabalhador em um dos centros mais importantes do antigo Império Romano.

Muitos outros, incontáveis são os homens que fizeram o Cristianismo ser o que é hoje, levando a Palavra aos que a desconheciam e vivendo o exemplo de transformação e amor. Através das eras, reverbera um chamado, um convite que vem do próprio Cristo e que se revifica a cada vez que alguém escolhe a melhor parte, atravessa a porta estreita e toma seu jugo: "Se quiseres, farei de vocês pescadores de homens".

Quer conhecer um pouco mais de alguns desses homens dos primeiros tempos? Quer buscar compreender um pouco mais sobre o seu papel, hoje, na continuidade dessa mensagem viva e intensa? Esteja conosco no dia 30 de setembro. "Tu és o meu vaso escolhido"

(1) O episódio do dia de pentecostes, descrito em Atos 1, 1-41
(2) Atos 2, 43
(3) Atos, capítulo 13 e seguintes
(4) Atos 9, 15

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

I EMSEJA-CEIVA


É com grande satisfação que convidamos todos os jovens das mocidades de Juiz de Fora para o I EMSEJA-CEIVA – I Encontro de Mocidades da Sociedade Espírita Joanna de Ângelis e do Centro Espírita Ivon Costa.
Serão discutidos assuntos relativos ao tema: “Liberta-te do mal: o poder da ação frente aos meus conflitos no mundo”.
Não deixe de participar, será um dia de muita confraternização!

Data: 26 de agosto de 2012
Horário: de 8 às 18h
Local: Centro Espírita Ivon Costa
Investimento: R$ 5,00
Inscrições até 20/08 com os coordenadores das mocidades

Dúvidas ou informações:
Guilherme: 8821-4640; Lívia: 8829-5257; Natália: 8832-5152 ou Thaysi: 8859-2656.

Muita paz e até lá!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O que tem na mocidade espírita?

E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão
e no partir do pão e nas orações
(Atos, 2:42).



Pelo nosso país afora, há inúmeros grupos de mocidades espíritas, construídos em formatos diferentes, com formas diversas de trabalhar o conteúdo e com propostas distintas de programação e mediação de estudo. O que, então, subsume todos esses grupos sob um mesmo nome? Qual a característica central da mocidade espírita? O que é mocidade, afinal de contas?

Primeiramente, a mocidade é um grupo de jovens. A definição de jovens, porém, não apresenta consenso. Órgãos como a ONU (Organização das Nações Unidas) ou o Banco Mundial estipulam a idade de 15 a 24 anos; a definição da OMS (Organização Mundial da Saúde) engloba meninos e meninas a partir de 10 anos, e o congresso brasileiro, desde 2010, considera que a faixa da juventude é compreendida entre 16 e 29 anos. Para trabalhadores espíritas que conheceram a doutrina espírita na mocidade, como o caso de Raul Teixeira, a juventude vai até os 25 anos de idade . Seja como for, é o período em que paulatinamente deixa-se o estágio infantil, e boa parte do aprendizado e das interações sociais deixa de ser feita em ambientes doméstico e da escola; os níveis de interação social tornam-se maiores e a independência do reduto familiar cresce gradativamente. Pode-se considerar, em espectro amplo, que a idade para a mocidade é de 13 a 30 anos, sem excluir especificidades e variações possíveis em diferentes contextos.

O grupo de mocidade é, então, um grupo de jovens que se reúnem na Casa Espírita para estudar o espiritismo. Herculano Pires considera que a função primordial do centro espírita é divulgar a doutrina espírita, consistindo essa missão em uma tarefa de educação . Assim, definiremos Mocidade Espírita como lugar privilegiado de interações entre jovens no qual se busca a construção de uma compreensão global da doutrina espírita e das consequências práticas desta para a vida. Entretanto, para que esse espaço seja, de fato, privilegiado, é necessário que se compreenda como é o trabalho com a juventude.

Contando com apenas um encontro por semana, a mocidade não dispõe da
regularidade que tem a escola; lidando diretamente com sujeitos que querem ser desafiados, que gostam de compreender e discutir os temas, que possuem uma série de anseios e curiosidades próprios da adolescência, diferem-se das crianças, com quem, na maioria das vezes, não gostam mais de ser comparados; com um tempo de atenção voluntária reduzido, desejo excessivo de interação e vontade de conhecer o outro, não se adaptam facilmente ao modelo eminentemente expositivo, típico das palestras públicas. Para buscar o melhor trabalho com essa faixa etária, é necessário atentarmo-nos para fatores como o conhecimento do público específico, a seleção adequada dos conteúdos e as formas de mediar os estudos. Essas facetas do grupo de mocidade estão inexoravelmente interligadas, e devem ser consonantes com os objetivos propostos para o trabalho. Diante de tudo isso, a todo momento o coordenador deve se questionar, avaliar sua atuação, a resposta dos jovens e as possibilidades de ir além do trabalho feito.

Na nossa opinião, além das especificidade de cada grupo, há um elemento importante para todos os grupos de juventude espírita: a afetividade. Nosso Raul Teixeira ressalta a necessidade de o coordenador saber fazer-se amigo dos jovens. Não basta ser um excelente conhecedor da doutrina ou um exímio palestrante: o coração do jovem se abre quando nos abrimos, por nossa vez, para ouvi-los e compreendê-los. A tendência da juventude para formar grupos e “tribos” tende a encontrar na mocidade espírita, quando vivida dentro dos ditames da fraternidade cristã e do carinho ao próximo, um espaço de vivência diferenciado e rico, em que as amizades formadas compartilham a crença em um espírito que sobrevive à carne, na justiça divina da reencarnação e no imperativo do amor e da transformação moral.

A convivência fraternal é importante em todos os ambientes e trabalhos de uma casa, mas encontra necessidade especial dentro do grupo de jovens, repleto de sujeitos em busca de fundamentos, de alicerces e de caminhos seguros por tomar. É preciso fazer do abraço e da palavra amiga elementos primordiais dentro do grupo de mocidade espírita, não pela cordialidade flácida e insincera que minora os verdadeiros esforços pela regeneração, mas sim pela verdadeira comunhão de almas e criação de vínculos fortes de amor fraterno, que possibilitarão uma troca potencializada de conhecimentos, experiências e emoções. Por isso perseveravam os apóstolos em suas abençoadas atividades; por isso serão conhecidos os discípulos do Cristo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Santo Agostinho e o Espiritismo, parte 3: Agostinho, Deus e a Lei Divina

por Fábio Fortes

Quem conhece a Verdade, conhece-a; e quem a conhece, conhece a eternidade; e quem a conhece, conhece o Amor.
Agostinho, Confissões, V, 12


Para nós, espíritas, o conceito de Deus, como o Criador, a “suma inteligência, causa primeira de todas as coisas” (Livro dos Espíritos, questão 1), talvez soe por demais familiar. De fato, a Doutrina Espírita alarga nossas concepções de Deus, que não é mais o ser representado à semelhança do homem, mas é a reunião de toda a bondade, misericórdia, justiça e perfeição, que o identifica, sem dúvida, com o amoroso “Deus-Pai” revelado por Jesus Cristo. De resto, embora nos faltem ainda recursos intelectuais para a compreensão da natureza íntima de Deus, sabemos, pela Codificação Espírita, que Deus tem como atributos a imutabilidade, a eternidade, a suma perfeição.

Em meados do século IV, porém, muitas ideias até contraditórias existiam acerca de Deus. Com a influência das doutrinas helenistas, do politeísmo antropomórfico greco-romano, da visão judaica da Divindade, Deus poderia ser uma ideia compreendida diferentemente na mentalidade média das pessoas: um ser sobrenatural e vingativo, em nome da Justiça, um herói olímpico, redentor dos homens, ou um conceito abstrato e metafísico regulador da natureza, ainda que frio e distante. A inteligência de Agostinho examinou cada uma das concepções de Deus, oriundas das diferentes escolas da época (neoplatônica, cética, pagã, judaica), para apresentar à humanidade, enfim, um conceito de Deus bastante parecido com a definição que hoje encontramos no Livro dos Espíritos: “Deus, era este o ser incorruptível, indeteriorável, imutável (...) Jamais alma alguma pôde ou poderá conceber alguma coisa melhor do que Vós – sumo e ótimo Bem” (Confissões, VII, 4, 6) .

Como “sumo e ótimo Bem”, Deus é a perfeição, a reunião das virtudes a que pode aspirar a alma humana, portanto, Deus é o Criador de todo o Bem: “Perguntei pelo meu Deus à massa do Universo, e respondeu-me: ‘Não sou eu, mas foi Ele que me criou´”. De resto, a dualidade maniqueísta entre o Mal e o Bem, que, na Idade Média, levaria à concepção dualista de Céu e Inferno, Deus e Diabo etc., não condizia mais com o conceito de Deus enquanto perfeição absoluta e imutável, agente criador do Universo. De fato, enquanto Agostinho se demorava nas doutrinas maniqueístas, custou-lhe reconhecer que o mal, enquanto substância, não existe: apenas o bem é obra da Criação Divina. A alma encarnada, porém, pelo livre-arbítrio, pode tomar caminhos que estejam na contra-mão desse sumo e eterno bem criado por Deus: “Procurei o que era a maldade e não encontrei uma substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema – de Vós, ó Deus”. (Confissões, VII, 22).

Para Agostinho de Hipona, como para nós, espíritas, o mal não é algo exterior ao homem, a arrastá-lo a determinadas condutas. O mal que possamos vivenciar nasce de escolhas íntimas, é fruto do nosso livre-arbítrio, segundo a nossa vontade, embora em contradição à Lei Divina, que, no entanto, é imutável. Não existe um Deus que castigue o mal, ou puna o pecador. O prejuízo ou o benefício de cada ação humana é regulado segundo uma Lei de caráter universal: “O furto é punido pela vossa lei, ó Senhor, lei que, indelevelmente, gravada no coração dos homens, nem sequer a mesma iniquidade poderá apagar”. (Confissões, II, 9).

A Lei de Deus está indelevelmente inscrita no coração humano, palavras que nos fazem recordar a questão 621 de O Livro dos Espíritos, em que Kardec pergunta aos espíritos: “Onde está escrita a Lei de Deus?” – Na consciência humana, respondem. Segundo os espíritos da Codificação, a Lei de Deus “é eterna e imutável, como o próprio Deus” (LE, 615), tal qual Agostinho reconhecia em seu tempo: “Em que tempo ou lugar será injusto que “amemos a Deus com todo nosso coração, com toda a nossa alma e com toda a nossa mente, e que amemos ao próximo como a si mesmo?” (Confissões, III, 15). Poderíamos responder com ele: nunca, em lugar algum a lei máxima do Amor será revogada.

A expressão dessa Lei, a iluminar, então, o pensamento de Agostinho e a esclarecer a Humanidade nos dias de hoje é, portanto, o Amor, como mostra a mensagem de Jesus, como testemunham os bons espíritos, como ecoa o pensamento agostiniano nas palavras da Codificação Espírita. A vivência do amor a Deus, ao próximo e a si mesmo é a chave para a transformação moral do homem, o resultado do processo de autoconhecimento e evolução humanas, o espelhamento da conduta de acordo com a Lei de Deus. Pois, se soubermos amar, podemos fazer qualquer coisa, e qualquer coisa será reflexo da ação divina no mundo por intermédio de nós, como também afirmava Santo Agostinho, em uma de suas máximas: Ama e faça o que quiseres.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Santo Agostinho e o Espiritismo, parte 2: Agostinho na estrada de Damasco

por Fábio Fortes


O Cristo não nos deixou. Fugiu dos nossos olhos para que entremos no coração e, aí, o encontremos. Sim, separou-se de nós, com relutância, mas ei-lo aqui.
Agostinho, Confissões, IV, 19


Agostinho, como outros apóstolos do Cristianismo primitivo, será sempre lembrado pelos incessantes esforços de transformação despendidos ao longo de sua longa existência. Como Paulo, que na estrada de Damasco, viveu o momento culminante de sua conversão ao Cristianismo, se revelando, em seguida, fiel colaborador da Boa Nova, também Agostinho é representado como o estudioso maniqueísta, ou o filósofo cético, que irrompeu uma mudança essencial em sua vida, abandonando hábitos e formas de vida, em prol da vivência pura da mensagem cristã.

Diferente de Paulo, entretanto, e de forma talvez mais parecida com o que ocorre com cada um de nós, a “estrada de Damasco” de Agostinho não se realizou como um evento particular em determinado passo de sua vida, mas foi fruto de situações e reflexões ao longo de toda sua existência, mesmo depois de sua conversão.

Nascido em Tagaste, no ano de 354, sua vida até os 32 anos seguiu o padrão da de um jovem que pôde se educar segundo as convenções da época. Na fase adulta, tornou-se mestre de gramática e retórica, tendo ensinado aos jovens de Tagaste, Cartago, Roma e Milão os recursos e estratégias verbais de persuasão retórica, além da leitura de textos da tradição clássica. No século IV, o norte da África, como muitas outras partes do Mediterrâneo, era uma província do Império Romano e as disciplinas de Retórica e Gramática eram os caminhos necessários para o cidadão culto atingir a prestigiosa carreira pública política ou forense. Ser mestre de retórica naquela época, era, por assim dizer, conviver com personagens do topo da escala social.

Segundo nos narra em suas Confissões, Agostinho nasceu de uma mãe já convertida ao Cristianismo, Santa Mônica, e de um pai pagão, Patrício. Desde criança, sentiu dentro de si um apelo à compreensão das coisas, que lhe levou à crença em Deus; no entanto, sem compreendê-lo, buscou diferentes doutrinas filosóficas e religiosas, entre as quais o maniqueísmo, o platonismo e o ceticismo, que lhe ilustraram o espírito com o interesse e conhecimento das letras, mas não satisfizeram, ao longo da vida, a sua sede de saber. Ao mesmo tempo, confessa ter sido arrastado pelos interesses mundanos da glória, do destaque social e pelos apelos da sensualidade.

É intrigante pensar que, de repente, como Paulo, na estrada de Damasco, Agostinho também, em dado momento da vida, decidiu abrir mão da carreira prestigiosa de mestre de retórica em Milão e da satisfação dos prazeres imediatos do sexo, das ambições políticas e materiais. A conversão de Agostinho se afigurou, muitas vezes, ao longo da história, como um evento milagroso, que lhe rendeu, afinal, o título de “Santo” e “Doutor da Igreja”. De fato, após os 32 anos, Agostinho não hesitaria em voltar para sua obscura terra natal, doar seus bens e seguir o Cristo.

No entanto, a leitura das Confissões já revela que a transformação foi um processo demorado, resultado, por um lado, da reflexão nunca interrompida sobre os eventos da vida, e, por outro, dos questionamentos sobre os conhecimentos obtidos nos livros. Para a conversão agostiniana, entram, sem dúvida, também o exemplo de sua mãe, a crente devota e fervorosa do Cristo; a inteligência de Santo Ambrósio, então Bispo de Milão, que lhe ofereceu uma maneira de interpretar a Bíblia de forma racional; e o impacto das provas da vida, com a perda de um amigo de infância. No entanto, também se destaca na transformação agostiniana um perene olhar para dentro de si, um autoquestionamento contínuo, auxiliado pelo estudo incessante das doutrinas e filosofias de sua época, autorreflexão que flagramos, por exemplo, ao lermos suas Confissões. Essa obra, em particular, é o grande exemplo daquele exame metódico e diário que Agostinho nos recomenda, enfim, na questão 919 de O Livro dos Espíritos, com a diferença de que, em vez de um dia, a obra faz uma revisão de toda uma vida.

Tais elementos se somam à constatação, depois adquirida, de que a transformação é, de fato, um movimento da alma, que, senhora da vontade, modifica a si própria, libertando-se do erro, que não é uma fraqueza da carne, mas um atributo provisório do espírito: A alma manda ao corpo, e este imediatamente lhe obedece; a alma dá uma ordem a si mesma, e resiste! Ordena a alma à mão que se mova, e é tão grande a facilidade que o mandado mal se distingue da execução. (Confissões, VIII, 25). É na alma, o espírito imortal, que reside a fraqueza e o erro, não no corpo. Portanto, segundo Agostinho, compete a esta o exercício de sua vontade, que, tal qual comanda o corpo, é também capaz de comandar-se a si mesma.