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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O que tem na mocidade espírita?

E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão
e no partir do pão e nas orações
(Atos, 2:42).



Pelo nosso país afora, há inúmeros grupos de mocidades espíritas, construídos em formatos diferentes, com formas diversas de trabalhar o conteúdo e com propostas distintas de programação e mediação de estudo. O que, então, subsume todos esses grupos sob um mesmo nome? Qual a característica central da mocidade espírita? O que é mocidade, afinal de contas?

Primeiramente, a mocidade é um grupo de jovens. A definição de jovens, porém, não apresenta consenso. Órgãos como a ONU (Organização das Nações Unidas) ou o Banco Mundial estipulam a idade de 15 a 24 anos; a definição da OMS (Organização Mundial da Saúde) engloba meninos e meninas a partir de 10 anos, e o congresso brasileiro, desde 2010, considera que a faixa da juventude é compreendida entre 16 e 29 anos. Para trabalhadores espíritas que conheceram a doutrina espírita na mocidade, como o caso de Raul Teixeira, a juventude vai até os 25 anos de idade . Seja como for, é o período em que paulatinamente deixa-se o estágio infantil, e boa parte do aprendizado e das interações sociais deixa de ser feita em ambientes doméstico e da escola; os níveis de interação social tornam-se maiores e a independência do reduto familiar cresce gradativamente. Pode-se considerar, em espectro amplo, que a idade para a mocidade é de 13 a 30 anos, sem excluir especificidades e variações possíveis em diferentes contextos.

O grupo de mocidade é, então, um grupo de jovens que se reúnem na Casa Espírita para estudar o espiritismo. Herculano Pires considera que a função primordial do centro espírita é divulgar a doutrina espírita, consistindo essa missão em uma tarefa de educação . Assim, definiremos Mocidade Espírita como lugar privilegiado de interações entre jovens no qual se busca a construção de uma compreensão global da doutrina espírita e das consequências práticas desta para a vida. Entretanto, para que esse espaço seja, de fato, privilegiado, é necessário que se compreenda como é o trabalho com a juventude.

Contando com apenas um encontro por semana, a mocidade não dispõe da
regularidade que tem a escola; lidando diretamente com sujeitos que querem ser desafiados, que gostam de compreender e discutir os temas, que possuem uma série de anseios e curiosidades próprios da adolescência, diferem-se das crianças, com quem, na maioria das vezes, não gostam mais de ser comparados; com um tempo de atenção voluntária reduzido, desejo excessivo de interação e vontade de conhecer o outro, não se adaptam facilmente ao modelo eminentemente expositivo, típico das palestras públicas. Para buscar o melhor trabalho com essa faixa etária, é necessário atentarmo-nos para fatores como o conhecimento do público específico, a seleção adequada dos conteúdos e as formas de mediar os estudos. Essas facetas do grupo de mocidade estão inexoravelmente interligadas, e devem ser consonantes com os objetivos propostos para o trabalho. Diante de tudo isso, a todo momento o coordenador deve se questionar, avaliar sua atuação, a resposta dos jovens e as possibilidades de ir além do trabalho feito.

Na nossa opinião, além das especificidade de cada grupo, há um elemento importante para todos os grupos de juventude espírita: a afetividade. Nosso Raul Teixeira ressalta a necessidade de o coordenador saber fazer-se amigo dos jovens. Não basta ser um excelente conhecedor da doutrina ou um exímio palestrante: o coração do jovem se abre quando nos abrimos, por nossa vez, para ouvi-los e compreendê-los. A tendência da juventude para formar grupos e “tribos” tende a encontrar na mocidade espírita, quando vivida dentro dos ditames da fraternidade cristã e do carinho ao próximo, um espaço de vivência diferenciado e rico, em que as amizades formadas compartilham a crença em um espírito que sobrevive à carne, na justiça divina da reencarnação e no imperativo do amor e da transformação moral.

A convivência fraternal é importante em todos os ambientes e trabalhos de uma casa, mas encontra necessidade especial dentro do grupo de jovens, repleto de sujeitos em busca de fundamentos, de alicerces e de caminhos seguros por tomar. É preciso fazer do abraço e da palavra amiga elementos primordiais dentro do grupo de mocidade espírita, não pela cordialidade flácida e insincera que minora os verdadeiros esforços pela regeneração, mas sim pela verdadeira comunhão de almas e criação de vínculos fortes de amor fraterno, que possibilitarão uma troca potencializada de conhecimentos, experiências e emoções. Por isso perseveravam os apóstolos em suas abençoadas atividades; por isso serão conhecidos os discípulos do Cristo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

INSERÇÃO DO JOVEM NO TRABALHO DO CENTRO ESPÍRITA E DO MOVIMENTO ESPÍRITA

Todos os dirigentes espíritas sabem que o jovem deverá substituí-lo no trabalho na Casa Espírita e no Movimento de Unificação do Espiritismo. A pergunta que se põe como via de conseqüência é: por que não preparamos o jovem para este trabalho?

Podemos elencar várias respostas para esta pergunta, entretanto, enquanto dirigentes, no que concerne a nossa parte devemos perguntar: qual foi a nossa palavra de estímulo? Qual foi o nosso esforço para a preparação dos jovens? Qual foi a nossa atitude para inserção dos moços no trabalho do Centro e do Movimento Espírita? Conhecemos os jovens que freqüentam a Casa Espírita que dirigimos? Interessamo-nos pela programação da Mocidade Espírita?

Num levantamento intitulado Diagnóstico do Primeiro Simpósio de Presidentes de Casas Espíritas da Aliança Municipal Espírita de Juiz de Fora a realidade que emerge dos dados tabulados relativos à Mocidade Espírita é que muitos Presidentes desconhecem as Mocidades de suas Casas Espíritas.

Se não conhecemos as Mocidades Espíritas, como iremos desenvolver ações de inserção dos jovens no trabalho?

Em nossa opinião, muitos dirigentes precisam primeiramente desejar verdadeiramente conhecer a Juventude Espírita de suas Casas. Depois disso, poderemos discutir em profundidade sobre o tema título da nossa reflexão.

Pode parecer que estou escrevendo apenas para os adultos porque olvidamos a inexorável transitoriedade das estações da vida. Não raro esquecemos que marchamos inevitavelmente rumo à senectude (... se não desencarnarmos, é claro...). Todavia, estou também me dirigindo aos jovens, porque é bom refletir que não somos jovens, estamos temporariamente jovens. A maioria de nós, quando chegamos à idade adulta, esquecemos que fomos jovens e desafortunadamente costumamos ainda dizer que há um abismo entre os adultos e os moços. A pergunta é: quem cavou este abismo?

Convém para todos nós adultos e jovens reflexionarmos, para o bem de nossas vidas e do movimento espírita, que se todos nós não podemos conservar a juventude, todos nós podemos e devemos manter a juvenilidade.

Emanoel de Castro Antunes Felício

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Capacitação de trabalhadores - Parte II

Seguindo na mesma esteira das reflexões levadas a cabo no texto anterior, existe uma pergunta específica que o coordenador do trabalho com mocidade deve estar sempre repetindo: se eu deixar o trabalho agora, há no grupo alguém em condições de continuá-lo? Há algum jovem que poderia assumir as funções que desempenho agora? Há alguém, de outro departamento da casa, que poderia coordenar esse grupo?

Esse questionamento é plenamente justificável e nada tem de presunçoso, como pode parecer a princípio. O trabalho de evangelização da criança, o da mediunidade e o da exposição doutrinária precisam de preparação; por que haveria de ser diferente com o trabalho de mocidades? Além do mais, faz-se mister estarmos sempre cientes da efemeridade de nosso tempo em determinados trabalhos. As mudanças da vida podem nos levar para longe ou nos impedir de disponibilizar tempo para as tarefas da evangelização da juventude. E, além disso, um coordenador que passasse quinze anos consecutivos trabalhando em um mesmo grupo tem vários fatores problemáticos, entre eles a dificuldade de renovação de tarefeiros.

Enfim, se a resposta para tal pergunta for negativa, não há necessidade de se desesperar, afinal. É necessário, sim, começar um planejamento de captação de trabalhadores. Capacitação, ensinoaprendizagem e crescimento continuado. É preciso identificar os interessados no trabalho e inseri-los paulatinamente na lida – paulatinamente! – levando-os a preparar, juntamente com o atual coordenador, estudos em dupla ou em grupo, a modificar um mural, a estar presentes em uma campanha do quilo ou a construir uma programação – ou seja, levá-los, aos poucos, a trabalhar ao nosso lado.

Esse procedimento é essencial. Começar a coordenar “do nada”, sem nenhuma aproximação prévia com o trabalho, pode dar muito certo, mas pode levar a vários tropeços evitáveis com uma capacitação contínua. Além disso, esses procedimentos dão a jovens que, mesmo que jamais assumam uma função de coordenador, dar passos importantes em tarefas de serviço cristão e no estabelecimento de sua autonomia dentro da mocidade espírita, compreendendo que estão em um espaço democrático, construído com fins de estudo e de confraternização.

Precisamos, assim, trabalhar dentro de uma tensão complexa. É preciso que tenhamos certeza de que o trabalho não depende de nós: se deixarmos a lida, o plano de Deus é muito maior do que nossas impossibilidades de tempo ou nossa pouca perseverança. Entretanto, é necessário, também, que saibamos que nosso trabalho faz alguma diferença e é importante dentro do grupo. Os extremos mostram-se sempre problemáticos: se o trabalho depende de mim, ele está alicerçado em algo falível, transitório e humano; se eu não tenho papel nenhum na mocidade, ou ela segue um modelo perfeito de auto-governo, ou o trabalho não está sendo bem feito.
Ratificamos, mais uma vez, a necessidade constante de formação e captação de novos trabalhadores, a fim de um movimento cada vez mais pujante e novo. Busquemos dentro dos grupos aqueles que se interessam; convidemos, deixemos o trabalho aberto em convites para todo o grupo. Contudo, é ainda preciso manter uma coisa em mente: não é o melhor cantor ou musicista, o mais inteligente e estudioso dos jovens que será o coordenador mais apropriado. Todo o talento do mundo cai por terra se carecer de responsabilidade, assiduidade e capacidade de trabalhar em equipe. Ouvi de um amigo e guardei essas palavras: “Sintoma de coordenador é pegar em cadeira”.

domingo, 2 de outubro de 2011

Capacitação de trabalhadores - Parte I

Uma frase de camisa de uma turma de formandos aparece como curiosa motivação para esse texto: “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”. O dito, embora já seja para nós um clichê, nos dá material para pensar no nosso trabalho com mocidades.
Em primeiro lugar, vale a pena discutir se, afinal, Deus escolhe. Ora, com relação ao nosso trabalho na seara do Cristo, estamos cientes de que a escolha foi feita por nós – e, em um grau mais intenso do que imaginamos a priori, possivelmente feita em um passado espiritual para ser cumprida e vivificada aqui na Terra. Sem dúvida, a sabedoria e a bondade de Deus estão diretamente envolvidas nesse processo por meios sagrados que não podemos conhecer (L.E. 963), mas a escolha precisa partir necessariamente de nós. Nos casos em que somos compelidos, através de circunstâncias diversas, a executar algum trabalho de forma compulsória, o desânimo, a falta de paixão e a inadequabilidade de nossos caracteres são capazes de, por vezes, minorar trabalhos em pleno andamento.
Somos nós, afinal, que escolhemos o trabalho, ainda que tendo sido incentivados a isso. Estando clara essa, resta o segundo excerto: capacitação. Deus capacita os que escolheram através da lida diária, do amparo espiritual, das dificuldades que nos fazem crescer e aprender e da inspiração ao longo da jornada. Entretanto, a essas muitas facetas da nossa capacitação, faz-se necessário acrescentar a capacitação que se faz por iniciativa própria de nós, trabalhadores.
É imprescindível, no trabalho espírita e, especificamente, no trabalho da juventude, estar-se sempre perguntando sobre a qualidade atual do trabalho, sobre o que se pode fazer de melhor ou diferente. A reflexão e o questionamento acerca da prática enriquece nossas possibilidades. É preciso, ainda, estar sempre a estudar: estudar a doutrina, as obras básicas, a atualidade, a juventude, didática, ensinoaprendizagem... E é ainda preciso trocar experiências, a fim de que com as ideias dos amigos de trabalho possamos alargar nossos horizontes de pensamento.
Algumas pessoas com boas intenções poderiam objetar e dizer, acertadamente, que a espiritualidade está a amparar o trabalho e que, se pusermos a mão à obra, o demais virá. Resta-nos a exortação evangélica, tão clara que não deixa dúvidas: “Ajuda-te que o Céu te ajudará”, oferecendo contraponto necessário à mentalidade de que olhar os lírios do campo é atitude suficiente para os trabalhadores.
Capacitação. Nosso movimento precisa investir nisso. Para realizar bons trabalhos, para cumprir com a missão do verdadeiro espírita, a capacitação faz-se mister. Para levar adiante a mensagem consoladora da vida após a morte, a radiante consolação da reencarnação e a bendita crença na existência de Deus, é preciso saber como chegar os corações jovens, e saber, é claro, do que estamos falando. “As línguas de fogo estarão sobre as vossas cabeças, verdadeiros adeptos do espiritismo”... É preciso fazer disso verdade.
Se esperamos, por vezes, que as inspirações nos resolvam os problemas, talvez elas inspirem, cotidiana e repetidamente, embora prestemos pouca atenção: “Estuda! Aprende! Capacita-te!”