por Fábio Fortes
O Cristo não nos deixou. Fugiu dos nossos olhos para que entremos no coração e, aí, o encontremos. Sim, separou-se de nós, com relutância, mas ei-lo aqui.
Agostinho, Confissões, IV, 19
Agostinho, como outros apóstolos do Cristianismo primitivo, será sempre lembrado pelos incessantes esforços de transformação despendidos ao longo de sua longa existência. Como Paulo, que na estrada de Damasco, viveu o momento culminante de sua conversão ao Cristianismo, se revelando, em seguida, fiel colaborador da Boa Nova, também Agostinho é representado como o estudioso maniqueísta, ou o filósofo cético, que irrompeu uma mudança essencial em sua vida, abandonando hábitos e formas de vida, em prol da vivência pura da mensagem cristã.
Diferente de Paulo, entretanto, e de forma talvez mais parecida com o que ocorre com cada um de nós, a “estrada de Damasco” de Agostinho não se realizou como um evento particular em determinado passo de sua vida, mas foi fruto de situações e reflexões ao longo de toda sua existência, mesmo depois de sua conversão.
Nascido em Tagaste, no ano de 354, sua vida até os 32 anos seguiu o padrão da de um jovem que pôde se educar segundo as convenções da época. Na fase adulta, tornou-se mestre de gramática e retórica, tendo ensinado aos jovens de Tagaste, Cartago, Roma e Milão os recursos e estratégias verbais de persuasão retórica, além da leitura de textos da tradição clássica. No século IV, o norte da África, como muitas outras partes do Mediterrâneo, era uma província do Império Romano e as disciplinas de Retórica e Gramática eram os caminhos necessários para o cidadão culto atingir a prestigiosa carreira pública política ou forense. Ser mestre de retórica naquela época, era, por assim dizer, conviver com personagens do topo da escala social.
Segundo nos narra em suas Confissões, Agostinho nasceu de uma mãe já convertida ao Cristianismo, Santa Mônica, e de um pai pagão, Patrício. Desde criança, sentiu dentro de si um apelo à compreensão das coisas, que lhe levou à crença em Deus; no entanto, sem compreendê-lo, buscou diferentes doutrinas filosóficas e religiosas, entre as quais o maniqueísmo, o platonismo e o ceticismo, que lhe ilustraram o espírito com o interesse e conhecimento das letras, mas não satisfizeram, ao longo da vida, a sua sede de saber. Ao mesmo tempo, confessa ter sido arrastado pelos interesses mundanos da glória, do destaque social e pelos apelos da sensualidade.
É intrigante pensar que, de repente, como Paulo, na estrada de Damasco, Agostinho também, em dado momento da vida, decidiu abrir mão da carreira prestigiosa de mestre de retórica em Milão e da satisfação dos prazeres imediatos do sexo, das ambições políticas e materiais. A conversão de Agostinho se afigurou, muitas vezes, ao longo da história, como um evento milagroso, que lhe rendeu, afinal, o título de “Santo” e “Doutor da Igreja”. De fato, após os 32 anos, Agostinho não hesitaria em voltar para sua obscura terra natal, doar seus bens e seguir o Cristo.
No entanto, a leitura das Confissões já revela que a transformação foi um processo demorado, resultado, por um lado, da reflexão nunca interrompida sobre os eventos da vida, e, por outro, dos questionamentos sobre os conhecimentos obtidos nos livros. Para a conversão agostiniana, entram, sem dúvida, também o exemplo de sua mãe, a crente devota e fervorosa do Cristo; a inteligência de Santo Ambrósio, então Bispo de Milão, que lhe ofereceu uma maneira de interpretar a Bíblia de forma racional; e o impacto das provas da vida, com a perda de um amigo de infância. No entanto, também se destaca na transformação agostiniana um perene olhar para dentro de si, um autoquestionamento contínuo, auxiliado pelo estudo incessante das doutrinas e filosofias de sua época, autorreflexão que flagramos, por exemplo, ao lermos suas Confissões. Essa obra, em particular, é o grande exemplo daquele exame metódico e diário que Agostinho nos recomenda, enfim, na questão 919 de O Livro dos Espíritos, com a diferença de que, em vez de um dia, a obra faz uma revisão de toda uma vida.
Tais elementos se somam à constatação, depois adquirida, de que a transformação é, de fato, um movimento da alma, que, senhora da vontade, modifica a si própria, libertando-se do erro, que não é uma fraqueza da carne, mas um atributo provisório do espírito: A alma manda ao corpo, e este imediatamente lhe obedece; a alma dá uma ordem a si mesma, e resiste! Ordena a alma à mão que se mova, e é tão grande a facilidade que o mandado mal se distingue da execução. (Confissões, VIII, 25). É na alma, o espírito imortal, que reside a fraqueza e o erro, não no corpo. Portanto, segundo Agostinho, compete a esta o exercício de sua vontade, que, tal qual comanda o corpo, é também capaz de comandar-se a si mesma.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Santo Agostinho e o Espiritismo, parte 1: Agostinho segundo o Espiritismo
Por Fábio Fortes
Criaste-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós.
(Agostinho, Confissões, I, 1)
No movimento espírita contemporâneo, o nome de Santo Agostinho é quase sempre associado à questão 919 do Livro dos Espíritos, em que Agostinho, como participante da Falange da Verdade, nos esclarece sobre a necessidade do autoconhecimento para resistirmos aos apelos do mal. Na sequência da mesma questão, é o próprio Agostinho quem nos indica uma maneira prática de se atingir o conhecimento de si mesmo, através do exame diário e metódico dos pensamentos e ações, e a consequente mudança de hábitos nos dias seguintes.
Não por acaso, a questão, que talvez seja uma das mais lembradas pelos espíritas, encerra, sob o nome do preclaro filósofo da doutrina cristã, duas das ideias mais caras à Doutrina Espírita: o autoconhecimento e a transformação. Por outro lado, enquanto a voz de Agostinho seja sempre relembrada nos estudos doutrinários pelas suas proverbiais clareza e profundidade de análise da questão oferecida por Kardec, poucos, entretanto, conhecem um pouco mais do pensamento e da vida de Agostinho e dos ensinamentos legados à humanidade durante sua exemplar e missionária passagem pela Terra.
O Agostinho da Revelação Espírita, é, como diz Erasto, em o Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 1, it. 11, o “espírito que vê com olhos que não via enquanto homem”, é o colaborador espiritual que revisita a Terra em nova missão, aliado a tantos outros companheiros espirituais encarregados de fazer florescer no mundo a Lei da Verdade, codificada por Allan Kardec. Agostinho, como, de resto, também Emmanuel, João Evangelista, Erasto, São Vicente de Paulo, entre outros, apresentam a Doutrina dos Espíritos como a consequência maior de uma série de comunicações ostensivas entre o mundo visível e o invisível. Em conjunto, proclamam: “chegaram os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal e que, sendo eles os ministros de Deus, e os agentes de sua vontade, têm por missão instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a Regeneração da Humanidade” (O Livro dos Espíritos, prolegômenos).
O colaborador que se soma à falange de espíritos do bem, imbuído da nobre missão de esclarecer o Evangelho pelas novas luzes do Consolador Prometido, não é outro, senão o mesmo Agostinho que, séculos antes, exemplificara com sua vida e obra, a necessidade de transformação por intermédio do autoconhecimento. Isso quer dizer que o outrora Bispo de Hipona já deixara em sua vida uma exemplificação para o que, na Era do Espírito, ele vem nos relembrar: a transformação moral e o autoconhecimento. Ademais, como também Erasto nos esclarece, este Agostinho que assina, entre outros, a obra espírita, não veio destruir o que edificou com o testemunho de sua vida no longínquo século IV, quando o mundo civilizado e pagão, em ruína, se abria para a construção cristã. Afirma Erasto: “Liberta, sua alma entrevê claridades novas, compreende o que antes não compreendia. Novas ideias lhe revelaram o sentido verdadeiro de algumas sentenças. (...) Sem renegar a sua fé, pode constituir-se disseminador do Espiritismo, porque vê cumprir-se o que fora predito.”
Por encontrar no Agostinho de Hipona a predição dos saberes que tanto admiramos no Agostinho da Doutrina Espírita, é que gostaríamos de destacar, nas próximas edições, alguns aspectos do pensamento agostiniano que perduram à ação do tempo e às mudanças sociais; aspectos, em suma, que, inalterados com a sucessão dos dias, continuam a ser expressões da revelação divina, no seu caráter de universalidade e atemporalidade, por reconhecermos que, na vida terrena de Agostinho, possamos encontrar, como ele já nos indica, uma maneira prática de nos libertarmos de nossas dificuldades presentes: Fazei o que eu fazia, quando vivia na Terra...
Criaste-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós.
(Agostinho, Confissões, I, 1)
No movimento espírita contemporâneo, o nome de Santo Agostinho é quase sempre associado à questão 919 do Livro dos Espíritos, em que Agostinho, como participante da Falange da Verdade, nos esclarece sobre a necessidade do autoconhecimento para resistirmos aos apelos do mal. Na sequência da mesma questão, é o próprio Agostinho quem nos indica uma maneira prática de se atingir o conhecimento de si mesmo, através do exame diário e metódico dos pensamentos e ações, e a consequente mudança de hábitos nos dias seguintes.
Não por acaso, a questão, que talvez seja uma das mais lembradas pelos espíritas, encerra, sob o nome do preclaro filósofo da doutrina cristã, duas das ideias mais caras à Doutrina Espírita: o autoconhecimento e a transformação. Por outro lado, enquanto a voz de Agostinho seja sempre relembrada nos estudos doutrinários pelas suas proverbiais clareza e profundidade de análise da questão oferecida por Kardec, poucos, entretanto, conhecem um pouco mais do pensamento e da vida de Agostinho e dos ensinamentos legados à humanidade durante sua exemplar e missionária passagem pela Terra.
O Agostinho da Revelação Espírita, é, como diz Erasto, em o Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 1, it. 11, o “espírito que vê com olhos que não via enquanto homem”, é o colaborador espiritual que revisita a Terra em nova missão, aliado a tantos outros companheiros espirituais encarregados de fazer florescer no mundo a Lei da Verdade, codificada por Allan Kardec. Agostinho, como, de resto, também Emmanuel, João Evangelista, Erasto, São Vicente de Paulo, entre outros, apresentam a Doutrina dos Espíritos como a consequência maior de uma série de comunicações ostensivas entre o mundo visível e o invisível. Em conjunto, proclamam: “chegaram os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal e que, sendo eles os ministros de Deus, e os agentes de sua vontade, têm por missão instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a Regeneração da Humanidade” (O Livro dos Espíritos, prolegômenos).
O colaborador que se soma à falange de espíritos do bem, imbuído da nobre missão de esclarecer o Evangelho pelas novas luzes do Consolador Prometido, não é outro, senão o mesmo Agostinho que, séculos antes, exemplificara com sua vida e obra, a necessidade de transformação por intermédio do autoconhecimento. Isso quer dizer que o outrora Bispo de Hipona já deixara em sua vida uma exemplificação para o que, na Era do Espírito, ele vem nos relembrar: a transformação moral e o autoconhecimento. Ademais, como também Erasto nos esclarece, este Agostinho que assina, entre outros, a obra espírita, não veio destruir o que edificou com o testemunho de sua vida no longínquo século IV, quando o mundo civilizado e pagão, em ruína, se abria para a construção cristã. Afirma Erasto: “Liberta, sua alma entrevê claridades novas, compreende o que antes não compreendia. Novas ideias lhe revelaram o sentido verdadeiro de algumas sentenças. (...) Sem renegar a sua fé, pode constituir-se disseminador do Espiritismo, porque vê cumprir-se o que fora predito.”
Por encontrar no Agostinho de Hipona a predição dos saberes que tanto admiramos no Agostinho da Doutrina Espírita, é que gostaríamos de destacar, nas próximas edições, alguns aspectos do pensamento agostiniano que perduram à ação do tempo e às mudanças sociais; aspectos, em suma, que, inalterados com a sucessão dos dias, continuam a ser expressões da revelação divina, no seu caráter de universalidade e atemporalidade, por reconhecermos que, na vida terrena de Agostinho, possamos encontrar, como ele já nos indica, uma maneira prática de nos libertarmos de nossas dificuldades presentes: Fazei o que eu fazia, quando vivia na Terra...
sábado, 23 de junho de 2012
Pedro e João
Entre os doze apóstolos do Cristo, havia caracteres diversos, com anseios, esperanças e necessidades diferentes. O pequeno grupo formado pelo Messias, há quase dois mil anos na Galileia, é um micro-cosmo da nossa realidade e da nossa sociedade, e o convite feito pessoalmente pelo Cristo se estende até os dias de hoje a cada um de nós: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. No convite aos primeiros discípulos, os evangelhos sinóticos são unânimes em assumir a presença de Simão Pedro e João.
Pedro era o mais velho de todos os doze. Pescador por toda sua vida, casado e com pelo menos um filho, não teve estudos formais; tinha as concepções arraigadas construídas ao longo de sua existência e certa tacanhez na lida com os outros. João, o mais jovem dos discípulos, era também um pescador cheio de vida e entusiamo. De comparações imaginativas, tinha a ambição típica da juventude, e muitas vezes um impulso de ocupar lugares que ainda não lhe cabiam.
Pedro é convidado a seguir Jesus sobre as águas, e caminha sobre elas fascinado por algum tempo, até que o homem velho, levado por suas desconfianças e incertezas que acumulara ao longo da jornada, duvida e afunda (Mt 14:22-32). Recebe a repreensão do próprio Cristo, por ter sido fraco em sua fé. Por outro lado, João, no ímpeto de uma juventude que ainda não compreende a necessidade de se conquistar os próprios méritos, pede ao Cristo que lhe deixe sentar ao seu lado no Reino dos Céus (Mc 10: 35-45); o Rabi responde-lhe, severo, que o mais importante no Reino seria o que mais servisse na Terra.
Pedro, o mais vivido, é sempre o primeiro a questionar o Cristo, pedindo-lhe que explique suas parábolas (Mt 15:15); é quem quer saber se será sete o número limite de perdão às ofensas (Mt 18:21); é quem responde a Jesus sobre a multidão que o cerca no episódio da mulher hemorroíssa (Lc 8:42-48) e, julgando-se detentor da autoridade da senectude, chega a repreender Jesus, quando este declara que o Filho do Homem deveria padecer (Mc 8:30-33). João, ao contrário, tem poucas falas relatadas nos Evangelhos; entre elas, lembramos o momento em que ele relata orgulhosamente a Jesus, como quem busca aprovação, que proibira um homem de curar em Seu nome, sendo admoestado pelo Mestre: “quem não é contra nós, é por nós” (Lc 9:49-50). A personalidade impetuosa de João é provavelmente marcante, pois não seria à toa que o Cristo o chamaria “Filho do Trovão” (Mc 3:17).
Pedro, na entrega absoluta de quem sabe o que espera, oferece a própria vida pelo Cristo (Jo 13:17); afirma, no orgulho dos que já muito viveram, que não se escandalizará por causa do Rabi, mesmo que todos se escandalizem (Mt 26:33), e sofre mordazmente quando percebe sua fraqueza, ao negar o Mestre no momento derradeiro (Mt 26:69-75). João, o único evangelista que relata em seu Evangelho a promessa de Jesus da vinda do Paráclito – o Consolador –, no orgulho da juventude que se julga onipotente, diz a Jesus que ele e seu irmão são capazes de beber do mesmo cálice que o Messias, e de ser batizados pelo mesmo batismo que o Mestre (Mt 20:22).
O Senhor escolheu homens que possuíam defeitos, assim como temos os nossos. E nas mãos desses homens imperfeitos, Jesus colocou tarefas de importância imprescindível para a cristalização do Cristianismo nascente. Na responsabilidade do frágil, e por vezes obtuso Pedro, o Cristo lança as fundações da sua ecclesia – a comunidade de seus seguidores (Mt 16:13-23), devotando-lhe a confiança que o mais experiente de seus amigos merecia: “Tu és pedra, e sobre essa pedra edificarei minha Igreja”. João, o discípulo irrequieto e amado, que deita sobre o peito do Cristo para lamentar pela morte iminente do Messias (Jo 13:23), recebe a incumbência de cuidar de Maria, dizendo-lhe, ao pé da cruz: “Eis aí tua mãe” (Jo 19:27).
Todas as casas espíritas têm “Pedros” e “Joões”.
Em todo ambiente sagrado de trabalho, ocuparemos o papel ora daquele que se arroga em ser possuidor da verdade, ora daquele que deseja o cargo burocrático sem o merecimento da folha de serviço; ora daquele que tem dificuldades no trato gentil com os irmãos da seara, ora daquele que esquece o mais importante pelos festejos excessivos. Cabe a nós seguir o exemplo dos irmãos em Cristo e perceber que a cada um é pedido apenas Reforma Íntima constante e o melhor que temos para dar.
Pedro e João foram amigos desde sua sociedade como pescadores (Lc 5:1-11). O carinho que tinham um pelo outro aparece na última ceia (Jo 13:24-26), no reencontro que ambos tiveram com o mestre logo após a ressureição (Lc 22:7-13) e continua após a partida definitiva do Mestre do plano terrestre (At 3:4, 4:13, 8:14). O sucesso de qualquer empreitada na seara cristã não está na revolução completa das coisas pela juventude que chega, nem na manutenção absoluta das formas de pensar e agir dos trabalhadores de longa data; mas sim na compreensão e na confraternização entre ambos, na troca de experiências e colaboração mútua, caminhando no sentido de perceber que a possibilidade de trabalho e de amor não tem limite nem restrição de idade.
Texto composto a partir de palestra proferida no "I Encontro sem fronteiras do Jovem Espírita", realizado em Poços de Caldas em maio de 2012
sexta-feira, 11 de maio de 2012
sábado, 28 de abril de 2012
Homossexualidade e Respeito
Vivemos em uma época de discursos politicamente corretos e virtual valorização acadêmica da diversidade. Interessante notar que em nossas vivências cotidianas, no entanto, ainda encontramos bastantes dificuldades em aceitar e respeitar os outros em suas singularidades. A orientação homoafetiva é um exemplo claro desta contradição, posto que o sujeito que assim se assume enfrenta toda uma série de desafios para exercer tranquilamente seus direitos e suas opções.
Lamentavelmente a sociedade vem protagonizando uma série de violências contra os sujeitos homossexuais, desde a simbólica, passando pela religiosa, chegando até à brutalidade das agressões físicas gratuitas. É fácil encontrar notícias recentes que relatam casos, em grande quantidade, que se repetem mundo afora, demonstrando o quanto os dircursos de inclusão continuam no plano da idealização cômoda, sem uma efetivação nas práticas.
Porque nos é tão complicado respeitar a orientação homossexual? Quais padrões culturais e psicológicos mobilizam tal rejeição? Onde a lição cristã de não julgamento? Onde o ensino Espírita da necessária variedade no contato social? O aclamado mundo de regeneração comporta tal discriminação? Precisamos criticar o paradigma da hetero-normatividade e avançarmos para um novo entendimento e uma nova postura diante da orientação homossexual, mais lúcida, ponderada e respeitosa.
Convidamos você a dar um passo neste sentido, participando conosco do Bate-Papo Espírita!!! Esta é a última semana de inscrições. Procure o coordenador de sua Mocidade e venha papear em grupo, sob à luz do Espiritismo.
Lamentavelmente a sociedade vem protagonizando uma série de violências contra os sujeitos homossexuais, desde a simbólica, passando pela religiosa, chegando até à brutalidade das agressões físicas gratuitas. É fácil encontrar notícias recentes que relatam casos, em grande quantidade, que se repetem mundo afora, demonstrando o quanto os dircursos de inclusão continuam no plano da idealização cômoda, sem uma efetivação nas práticas.
Porque nos é tão complicado respeitar a orientação homossexual? Quais padrões culturais e psicológicos mobilizam tal rejeição? Onde a lição cristã de não julgamento? Onde o ensino Espírita da necessária variedade no contato social? O aclamado mundo de regeneração comporta tal discriminação? Precisamos criticar o paradigma da hetero-normatividade e avançarmos para um novo entendimento e uma nova postura diante da orientação homossexual, mais lúcida, ponderada e respeitosa.
Convidamos você a dar um passo neste sentido, participando conosco do Bate-Papo Espírita!!! Esta é a última semana de inscrições. Procure o coordenador de sua Mocidade e venha papear em grupo, sob à luz do Espiritismo.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Homossexualidade no Centro Espírita
Uma vez que todo tipo de pessoa frequenta a instituição espírita, com vínculos mais ou menos fortes, é esperado que esta diversidade também se verifique no que tange à orientação sexual. Muito óbvio que adentram às portas de qualquer casa espírita indivíduos que se assumem heterossexuais, homossexuais ou bissexuais.
Ocorre que esta constatação sempre trouxe consequencias polêmicas nos arraiais espiritistas, posto que as visões e organizações de cunho tradicionalista e preconceituoso, trataram de marginalizar, doutrinaria-socialmente, as pessoas declaradas ou suspeitas (este é o termo) de serem homossexuais.
Em vários seminários e pinga-fogos, ouvimos opiniões semelhantes, discursando pela não inclusão do homossexual nas lides espíritas. A justificativa se baseia no desequilíbrio de que são portadores, na necessidade que têm de absterem dos pecados da comunhão homoafetiva, e do mal exemplo que seriam para os demais.
Mas, afinal, homossexualidade indica comportamento pervertido? A orientação sexual é que define o comportamento sexual? Será que tal postura não cria uma cultura cínica de silêncio e vidas paralelas dentro do Centro Espírita? Esta discriminação encontra algum apoio nas passagens Evangélicas? Como os Espíritos se posicionam diante de tal questão?
Se você deseja aprofundar este debate, de maneira respeitosa e madura, está convidado a participar do Bate-Papo Espírita!!! Procure o coordenador de sua Mocidade e se inscreva.
Aproveito e sugiro uma pequena bibliografia espírita sobre o tema. Caso desejem ler antes do evento, será de grande utilidade para as discussões.
Ocorre que esta constatação sempre trouxe consequencias polêmicas nos arraiais espiritistas, posto que as visões e organizações de cunho tradicionalista e preconceituoso, trataram de marginalizar, doutrinaria-socialmente, as pessoas declaradas ou suspeitas (este é o termo) de serem homossexuais.
Em vários seminários e pinga-fogos, ouvimos opiniões semelhantes, discursando pela não inclusão do homossexual nas lides espíritas. A justificativa se baseia no desequilíbrio de que são portadores, na necessidade que têm de absterem dos pecados da comunhão homoafetiva, e do mal exemplo que seriam para os demais.
Mas, afinal, homossexualidade indica comportamento pervertido? A orientação sexual é que define o comportamento sexual? Será que tal postura não cria uma cultura cínica de silêncio e vidas paralelas dentro do Centro Espírita? Esta discriminação encontra algum apoio nas passagens Evangélicas? Como os Espíritos se posicionam diante de tal questão?
Se você deseja aprofundar este debate, de maneira respeitosa e madura, está convidado a participar do Bate-Papo Espírita!!! Procure o coordenador de sua Mocidade e se inscreva.
Aproveito e sugiro uma pequena bibliografia espírita sobre o tema. Caso desejem ler antes do evento, será de grande utilidade para as discussões.
§ O
Livro dos Espíritos: itens 132, 200,
201, 202, 207, 208, 216, 228, 229, 258, 259, 261, 264, 269, 335, 367, 368, 369, 370, 385, 695, 696, 698, 699.
§ O
Evangelho segundo o Espiritismo: introdução, item II.
§ Revista
Espírita: janeiro de 1866, artigo “As
mulheres têm uma alma?”.
§ Além
do rosa e do azul – recortes terapêuticos sobre homossexualidade à luz da
Doutrina Espírita (Gibson Bastos) [CELD].
§ Vida
e Sexo (Emmanuel): capítulos introdução,
19, 20, 21, 23, 26.
§ Desafios
da vida familiar (Camilo): capítulo I, questões 12 e 13; capítulo II,
questões 28 e 29.
§ O
jovem espírita quer saber (autores diversos): capítulos “Sexo” e “Homossexualidade”.
§ Atualidade
do Pensamento Espírita (Vianna de Carvalho): questões 5 e 179.
§ Pinga-Fogo
(Chico Xavier): 1º, questão 35; 2º, questão 40.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Espiritismo e ciberespaço


Aproveitando a proximidade do Bate Papo Espírita de 2012, postamos um texto produzido ao longo do processo de preparação de estudos do Bate Papo Espírita do ano de 2011, Espiritismo e Ciberespaço
As inscrições para o BPE 2012 - "Os Espíritos têm sexos?" estão abertas e são limitadas! Faça sua inscrição com o coordenador de sua mocidade!
Ciberespaço, sociedade e espiritismo
A necessidade de estarmos em lida direta com outros iguais a nós é conhecida desde muito tempo, e sistematizada por pensadores modernos das áreas da educação, filosofia, entre outras. O próprio livro dos espíritos ressalta a necessidade absoluta da vida em sociedade, e na conhecida questão referente ao conhecimento de si mesmo, respondida por Santo Agostinho, ele coloca como pergunta essencial a ser feita para si mesmo: “se ninguém tivera motivo para de mim se queixar”. A forma como o eu é visto pelo outro é, de fato, essencial para a construção da nossa personalidade.
O ser humano está diante do outro em relação direta desde sempre. Primeiramente entre os agrupamentos primitivos de seres humanos, em pequenos grupos de nômades; em seguida, na esfera das cidades, depois do assentamento da humanidade decorrente da descoberta da agricultura e da criação de animais; começa a consolidar-se uma esfera doméstica, em que as relações entre familiares tornam-se mais estreitas; diferentes grupos sociais interagem sob regimes absolutistas, teocráticos, tribalistas e democráticos.
Com o descobrimento de alternativas tecnológicas para melhoria do trabalho e da produção, o mundo vai vivendo um aceleramente cada vez maior em todas as suas instâncias; o desvanecimento da grandeza do espaço que cortava continentes por meio das novas formas de transporte e comunicações torna todo o mundo, paulatinamente, um grande villarejo global. Em consonância com esse encurtamento das distâncias, surge um novo contexto em que as relações sociais entre os homens se torna possível: a internet.
As relações entre os jovens nos sites de relacionamentos, twitter e programas de conversa estão carregadas de um páthos intenso, como é próprio de sua idade. No geral, arrolam-se especialmente declarações emotivas a respeito das amizades, sobre a importância de uns na vida de outros, e de ações praticadas regularmente e/ou sendo praticadas no momento pelos internautas. Assim, os jovens fazem-se cada vez mais presentes na vida um do outro, seja por sentir-se importante em receber e dedicar textos à amizade entre amigos, seja ao conhecer os detalhes da vida cotidiana dos outros por meio de mensagens.
Cumpre-nos questionar a respeito da natureza dessas relações. Não se deve negar que, pelo jogo da simulação, pela construção de um perfil mais próximo do que quero ser do que da realidade, pelo uso de apelidos, pela inscrição em fóruns e comunidades de assuntos específicos, pela possibilidade de esconder as expressões faciais, e ações simultâneas e alguns pensamentos por uma conversa do messenger, o jovem tem uma nova gama de possibilidades para a construção da sua subjetividade e identidade, baseada na forma como o outro o vê, na forma como vê o outro e na forma como deseja ser visto.
Entretanto, cumpre-nos também questionar-nos se esse tipo de interação não deixa de lado pontos importantes da relação face a face, do toque, do olhar, da troca de energias salutares e, muitas vezes, da exposição sincera e assertiva. Mesmo que muitas das vezes os jovens acabam por fortalecer laços de amizade e se tornarem mais próximos por meio de relações sociais suplementares advindas de tais meios, não se deve abdicar da conversa franca. A exaltação das virtudes na frente dos amigos se revela mais difícil do que em meio virtual, deflagrando uma certa característica de “proteção de face” da criação de textos emotivos via internet.
Ficam diversas questões relativas ao tema, mas permanece sempre a questão básica a que nos norteia o conhecimento do Espiritismo: a busca do equilíbrio. Desviando dos exageros de quem se entrega por horas à vida virtual, preferível, para alguns, à vida diante do outro, o apelo ao mundo ciberssocial deve ser encarado como vinculado à nossa existência como um todo, e o que for apreendido em termos de fantasia e simulação deve ser, mais cedo ou mais tarde, cotejado à vida.
A cultura contemporânea valorizante das aparências, a velocidade e a simultaneidade com que as coisas acontecem, a hibridez e liquidez dos produtos culturais de nosso tempo podem nos levar a uma vida quase contemplativa, de quem não conversa com os amigos da sala mas tem centenas de companheiros no Orkut, de quem busca na fluidez da fama os heróis dos seus valores ou a catárse das suas frustrações, de quem prefere os prazeres e as conquistas fluidas às verdadeiras amizades e caminhos. Lembremos, então, da exortação do Cristo: “Onde estiver seu tesouro, aí estará seu coração”.
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