quinta-feira, 16 de agosto de 2012

I EMSEJA-CEIVA


É com grande satisfação que convidamos todos os jovens das mocidades de Juiz de Fora para o I EMSEJA-CEIVA – I Encontro de Mocidades da Sociedade Espírita Joanna de Ângelis e do Centro Espírita Ivon Costa.
Serão discutidos assuntos relativos ao tema: “Liberta-te do mal: o poder da ação frente aos meus conflitos no mundo”.
Não deixe de participar, será um dia de muita confraternização!

Data: 26 de agosto de 2012
Horário: de 8 às 18h
Local: Centro Espírita Ivon Costa
Investimento: R$ 5,00
Inscrições até 20/08 com os coordenadores das mocidades

Dúvidas ou informações:
Guilherme: 8821-4640; Lívia: 8829-5257; Natália: 8832-5152 ou Thaysi: 8859-2656.

Muita paz e até lá!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O que tem na mocidade espírita?

E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão
e no partir do pão e nas orações
(Atos, 2:42).



Pelo nosso país afora, há inúmeros grupos de mocidades espíritas, construídos em formatos diferentes, com formas diversas de trabalhar o conteúdo e com propostas distintas de programação e mediação de estudo. O que, então, subsume todos esses grupos sob um mesmo nome? Qual a característica central da mocidade espírita? O que é mocidade, afinal de contas?

Primeiramente, a mocidade é um grupo de jovens. A definição de jovens, porém, não apresenta consenso. Órgãos como a ONU (Organização das Nações Unidas) ou o Banco Mundial estipulam a idade de 15 a 24 anos; a definição da OMS (Organização Mundial da Saúde) engloba meninos e meninas a partir de 10 anos, e o congresso brasileiro, desde 2010, considera que a faixa da juventude é compreendida entre 16 e 29 anos. Para trabalhadores espíritas que conheceram a doutrina espírita na mocidade, como o caso de Raul Teixeira, a juventude vai até os 25 anos de idade . Seja como for, é o período em que paulatinamente deixa-se o estágio infantil, e boa parte do aprendizado e das interações sociais deixa de ser feita em ambientes doméstico e da escola; os níveis de interação social tornam-se maiores e a independência do reduto familiar cresce gradativamente. Pode-se considerar, em espectro amplo, que a idade para a mocidade é de 13 a 30 anos, sem excluir especificidades e variações possíveis em diferentes contextos.

O grupo de mocidade é, então, um grupo de jovens que se reúnem na Casa Espírita para estudar o espiritismo. Herculano Pires considera que a função primordial do centro espírita é divulgar a doutrina espírita, consistindo essa missão em uma tarefa de educação . Assim, definiremos Mocidade Espírita como lugar privilegiado de interações entre jovens no qual se busca a construção de uma compreensão global da doutrina espírita e das consequências práticas desta para a vida. Entretanto, para que esse espaço seja, de fato, privilegiado, é necessário que se compreenda como é o trabalho com a juventude.

Contando com apenas um encontro por semana, a mocidade não dispõe da
regularidade que tem a escola; lidando diretamente com sujeitos que querem ser desafiados, que gostam de compreender e discutir os temas, que possuem uma série de anseios e curiosidades próprios da adolescência, diferem-se das crianças, com quem, na maioria das vezes, não gostam mais de ser comparados; com um tempo de atenção voluntária reduzido, desejo excessivo de interação e vontade de conhecer o outro, não se adaptam facilmente ao modelo eminentemente expositivo, típico das palestras públicas. Para buscar o melhor trabalho com essa faixa etária, é necessário atentarmo-nos para fatores como o conhecimento do público específico, a seleção adequada dos conteúdos e as formas de mediar os estudos. Essas facetas do grupo de mocidade estão inexoravelmente interligadas, e devem ser consonantes com os objetivos propostos para o trabalho. Diante de tudo isso, a todo momento o coordenador deve se questionar, avaliar sua atuação, a resposta dos jovens e as possibilidades de ir além do trabalho feito.

Na nossa opinião, além das especificidade de cada grupo, há um elemento importante para todos os grupos de juventude espírita: a afetividade. Nosso Raul Teixeira ressalta a necessidade de o coordenador saber fazer-se amigo dos jovens. Não basta ser um excelente conhecedor da doutrina ou um exímio palestrante: o coração do jovem se abre quando nos abrimos, por nossa vez, para ouvi-los e compreendê-los. A tendência da juventude para formar grupos e “tribos” tende a encontrar na mocidade espírita, quando vivida dentro dos ditames da fraternidade cristã e do carinho ao próximo, um espaço de vivência diferenciado e rico, em que as amizades formadas compartilham a crença em um espírito que sobrevive à carne, na justiça divina da reencarnação e no imperativo do amor e da transformação moral.

A convivência fraternal é importante em todos os ambientes e trabalhos de uma casa, mas encontra necessidade especial dentro do grupo de jovens, repleto de sujeitos em busca de fundamentos, de alicerces e de caminhos seguros por tomar. É preciso fazer do abraço e da palavra amiga elementos primordiais dentro do grupo de mocidade espírita, não pela cordialidade flácida e insincera que minora os verdadeiros esforços pela regeneração, mas sim pela verdadeira comunhão de almas e criação de vínculos fortes de amor fraterno, que possibilitarão uma troca potencializada de conhecimentos, experiências e emoções. Por isso perseveravam os apóstolos em suas abençoadas atividades; por isso serão conhecidos os discípulos do Cristo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Santo Agostinho e o Espiritismo, parte 3: Agostinho, Deus e a Lei Divina

por Fábio Fortes

Quem conhece a Verdade, conhece-a; e quem a conhece, conhece a eternidade; e quem a conhece, conhece o Amor.
Agostinho, Confissões, V, 12


Para nós, espíritas, o conceito de Deus, como o Criador, a “suma inteligência, causa primeira de todas as coisas” (Livro dos Espíritos, questão 1), talvez soe por demais familiar. De fato, a Doutrina Espírita alarga nossas concepções de Deus, que não é mais o ser representado à semelhança do homem, mas é a reunião de toda a bondade, misericórdia, justiça e perfeição, que o identifica, sem dúvida, com o amoroso “Deus-Pai” revelado por Jesus Cristo. De resto, embora nos faltem ainda recursos intelectuais para a compreensão da natureza íntima de Deus, sabemos, pela Codificação Espírita, que Deus tem como atributos a imutabilidade, a eternidade, a suma perfeição.

Em meados do século IV, porém, muitas ideias até contraditórias existiam acerca de Deus. Com a influência das doutrinas helenistas, do politeísmo antropomórfico greco-romano, da visão judaica da Divindade, Deus poderia ser uma ideia compreendida diferentemente na mentalidade média das pessoas: um ser sobrenatural e vingativo, em nome da Justiça, um herói olímpico, redentor dos homens, ou um conceito abstrato e metafísico regulador da natureza, ainda que frio e distante. A inteligência de Agostinho examinou cada uma das concepções de Deus, oriundas das diferentes escolas da época (neoplatônica, cética, pagã, judaica), para apresentar à humanidade, enfim, um conceito de Deus bastante parecido com a definição que hoje encontramos no Livro dos Espíritos: “Deus, era este o ser incorruptível, indeteriorável, imutável (...) Jamais alma alguma pôde ou poderá conceber alguma coisa melhor do que Vós – sumo e ótimo Bem” (Confissões, VII, 4, 6) .

Como “sumo e ótimo Bem”, Deus é a perfeição, a reunião das virtudes a que pode aspirar a alma humana, portanto, Deus é o Criador de todo o Bem: “Perguntei pelo meu Deus à massa do Universo, e respondeu-me: ‘Não sou eu, mas foi Ele que me criou´”. De resto, a dualidade maniqueísta entre o Mal e o Bem, que, na Idade Média, levaria à concepção dualista de Céu e Inferno, Deus e Diabo etc., não condizia mais com o conceito de Deus enquanto perfeição absoluta e imutável, agente criador do Universo. De fato, enquanto Agostinho se demorava nas doutrinas maniqueístas, custou-lhe reconhecer que o mal, enquanto substância, não existe: apenas o bem é obra da Criação Divina. A alma encarnada, porém, pelo livre-arbítrio, pode tomar caminhos que estejam na contra-mão desse sumo e eterno bem criado por Deus: “Procurei o que era a maldade e não encontrei uma substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema – de Vós, ó Deus”. (Confissões, VII, 22).

Para Agostinho de Hipona, como para nós, espíritas, o mal não é algo exterior ao homem, a arrastá-lo a determinadas condutas. O mal que possamos vivenciar nasce de escolhas íntimas, é fruto do nosso livre-arbítrio, segundo a nossa vontade, embora em contradição à Lei Divina, que, no entanto, é imutável. Não existe um Deus que castigue o mal, ou puna o pecador. O prejuízo ou o benefício de cada ação humana é regulado segundo uma Lei de caráter universal: “O furto é punido pela vossa lei, ó Senhor, lei que, indelevelmente, gravada no coração dos homens, nem sequer a mesma iniquidade poderá apagar”. (Confissões, II, 9).

A Lei de Deus está indelevelmente inscrita no coração humano, palavras que nos fazem recordar a questão 621 de O Livro dos Espíritos, em que Kardec pergunta aos espíritos: “Onde está escrita a Lei de Deus?” – Na consciência humana, respondem. Segundo os espíritos da Codificação, a Lei de Deus “é eterna e imutável, como o próprio Deus” (LE, 615), tal qual Agostinho reconhecia em seu tempo: “Em que tempo ou lugar será injusto que “amemos a Deus com todo nosso coração, com toda a nossa alma e com toda a nossa mente, e que amemos ao próximo como a si mesmo?” (Confissões, III, 15). Poderíamos responder com ele: nunca, em lugar algum a lei máxima do Amor será revogada.

A expressão dessa Lei, a iluminar, então, o pensamento de Agostinho e a esclarecer a Humanidade nos dias de hoje é, portanto, o Amor, como mostra a mensagem de Jesus, como testemunham os bons espíritos, como ecoa o pensamento agostiniano nas palavras da Codificação Espírita. A vivência do amor a Deus, ao próximo e a si mesmo é a chave para a transformação moral do homem, o resultado do processo de autoconhecimento e evolução humanas, o espelhamento da conduta de acordo com a Lei de Deus. Pois, se soubermos amar, podemos fazer qualquer coisa, e qualquer coisa será reflexo da ação divina no mundo por intermédio de nós, como também afirmava Santo Agostinho, em uma de suas máximas: Ama e faça o que quiseres.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Santo Agostinho e o Espiritismo, parte 2: Agostinho na estrada de Damasco

por Fábio Fortes


O Cristo não nos deixou. Fugiu dos nossos olhos para que entremos no coração e, aí, o encontremos. Sim, separou-se de nós, com relutância, mas ei-lo aqui.
Agostinho, Confissões, IV, 19


Agostinho, como outros apóstolos do Cristianismo primitivo, será sempre lembrado pelos incessantes esforços de transformação despendidos ao longo de sua longa existência. Como Paulo, que na estrada de Damasco, viveu o momento culminante de sua conversão ao Cristianismo, se revelando, em seguida, fiel colaborador da Boa Nova, também Agostinho é representado como o estudioso maniqueísta, ou o filósofo cético, que irrompeu uma mudança essencial em sua vida, abandonando hábitos e formas de vida, em prol da vivência pura da mensagem cristã.

Diferente de Paulo, entretanto, e de forma talvez mais parecida com o que ocorre com cada um de nós, a “estrada de Damasco” de Agostinho não se realizou como um evento particular em determinado passo de sua vida, mas foi fruto de situações e reflexões ao longo de toda sua existência, mesmo depois de sua conversão.

Nascido em Tagaste, no ano de 354, sua vida até os 32 anos seguiu o padrão da de um jovem que pôde se educar segundo as convenções da época. Na fase adulta, tornou-se mestre de gramática e retórica, tendo ensinado aos jovens de Tagaste, Cartago, Roma e Milão os recursos e estratégias verbais de persuasão retórica, além da leitura de textos da tradição clássica. No século IV, o norte da África, como muitas outras partes do Mediterrâneo, era uma província do Império Romano e as disciplinas de Retórica e Gramática eram os caminhos necessários para o cidadão culto atingir a prestigiosa carreira pública política ou forense. Ser mestre de retórica naquela época, era, por assim dizer, conviver com personagens do topo da escala social.

Segundo nos narra em suas Confissões, Agostinho nasceu de uma mãe já convertida ao Cristianismo, Santa Mônica, e de um pai pagão, Patrício. Desde criança, sentiu dentro de si um apelo à compreensão das coisas, que lhe levou à crença em Deus; no entanto, sem compreendê-lo, buscou diferentes doutrinas filosóficas e religiosas, entre as quais o maniqueísmo, o platonismo e o ceticismo, que lhe ilustraram o espírito com o interesse e conhecimento das letras, mas não satisfizeram, ao longo da vida, a sua sede de saber. Ao mesmo tempo, confessa ter sido arrastado pelos interesses mundanos da glória, do destaque social e pelos apelos da sensualidade.

É intrigante pensar que, de repente, como Paulo, na estrada de Damasco, Agostinho também, em dado momento da vida, decidiu abrir mão da carreira prestigiosa de mestre de retórica em Milão e da satisfação dos prazeres imediatos do sexo, das ambições políticas e materiais. A conversão de Agostinho se afigurou, muitas vezes, ao longo da história, como um evento milagroso, que lhe rendeu, afinal, o título de “Santo” e “Doutor da Igreja”. De fato, após os 32 anos, Agostinho não hesitaria em voltar para sua obscura terra natal, doar seus bens e seguir o Cristo.

No entanto, a leitura das Confissões já revela que a transformação foi um processo demorado, resultado, por um lado, da reflexão nunca interrompida sobre os eventos da vida, e, por outro, dos questionamentos sobre os conhecimentos obtidos nos livros. Para a conversão agostiniana, entram, sem dúvida, também o exemplo de sua mãe, a crente devota e fervorosa do Cristo; a inteligência de Santo Ambrósio, então Bispo de Milão, que lhe ofereceu uma maneira de interpretar a Bíblia de forma racional; e o impacto das provas da vida, com a perda de um amigo de infância. No entanto, também se destaca na transformação agostiniana um perene olhar para dentro de si, um autoquestionamento contínuo, auxiliado pelo estudo incessante das doutrinas e filosofias de sua época, autorreflexão que flagramos, por exemplo, ao lermos suas Confissões. Essa obra, em particular, é o grande exemplo daquele exame metódico e diário que Agostinho nos recomenda, enfim, na questão 919 de O Livro dos Espíritos, com a diferença de que, em vez de um dia, a obra faz uma revisão de toda uma vida.

Tais elementos se somam à constatação, depois adquirida, de que a transformação é, de fato, um movimento da alma, que, senhora da vontade, modifica a si própria, libertando-se do erro, que não é uma fraqueza da carne, mas um atributo provisório do espírito: A alma manda ao corpo, e este imediatamente lhe obedece; a alma dá uma ordem a si mesma, e resiste! Ordena a alma à mão que se mova, e é tão grande a facilidade que o mandado mal se distingue da execução. (Confissões, VIII, 25). É na alma, o espírito imortal, que reside a fraqueza e o erro, não no corpo. Portanto, segundo Agostinho, compete a esta o exercício de sua vontade, que, tal qual comanda o corpo, é também capaz de comandar-se a si mesma.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Santo Agostinho e o Espiritismo, parte 1: Agostinho segundo o Espiritismo

Por Fábio Fortes

Criaste-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós.
(Agostinho, Confissões, I, 1)


No movimento espírita contemporâneo, o nome de Santo Agostinho é quase sempre associado à questão 919 do Livro dos Espíritos, em que Agostinho, como participante da Falange da Verdade, nos esclarece sobre a necessidade do autoconhecimento para resistirmos aos apelos do mal. Na sequência da mesma questão, é o próprio Agostinho quem nos indica uma maneira prática de se atingir o conhecimento de si mesmo, através do exame diário e metódico dos pensamentos e ações, e a consequente mudança de hábitos nos dias seguintes.

Não por acaso, a questão, que talvez seja uma das mais lembradas pelos espíritas, encerra, sob o nome do preclaro filósofo da doutrina cristã, duas das ideias mais caras à Doutrina Espírita: o autoconhecimento e a transformação. Por outro lado, enquanto a voz de Agostinho seja sempre relembrada nos estudos doutrinários pelas suas proverbiais clareza e profundidade de análise da questão oferecida por Kardec, poucos, entretanto, conhecem um pouco mais do pensamento e da vida de Agostinho e dos ensinamentos legados à humanidade durante sua exemplar e missionária passagem pela Terra.

O Agostinho da Revelação Espírita, é, como diz Erasto, em o Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 1, it. 11, o “espírito que vê com olhos que não via enquanto homem”, é o colaborador espiritual que revisita a Terra em nova missão, aliado a tantos outros companheiros espirituais encarregados de fazer florescer no mundo a Lei da Verdade, codificada por Allan Kardec. Agostinho, como, de resto, também Emmanuel, João Evangelista, Erasto, São Vicente de Paulo, entre outros, apresentam a Doutrina dos Espíritos como a consequência maior de uma série de comunicações ostensivas entre o mundo visível e o invisível. Em conjunto, proclamam: “chegaram os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal e que, sendo eles os ministros de Deus, e os agentes de sua vontade, têm por missão instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a Regeneração da Humanidade” (O Livro dos Espíritos, prolegômenos).

O colaborador que se soma à falange de espíritos do bem, imbuído da nobre missão de esclarecer o Evangelho pelas novas luzes do Consolador Prometido, não é outro, senão o mesmo Agostinho que, séculos antes, exemplificara com sua vida e obra, a necessidade de transformação por intermédio do autoconhecimento. Isso quer dizer que o outrora Bispo de Hipona já deixara em sua vida uma exemplificação para o que, na Era do Espírito, ele vem nos relembrar: a transformação moral e o autoconhecimento. Ademais, como também Erasto nos esclarece, este Agostinho que assina, entre outros, a obra espírita, não veio destruir o que edificou com o testemunho de sua vida no longínquo século IV, quando o mundo civilizado e pagão, em ruína, se abria para a construção cristã. Afirma Erasto: “Liberta, sua alma entrevê claridades novas, compreende o que antes não compreendia. Novas ideias lhe revelaram o sentido verdadeiro de algumas sentenças. (...) Sem renegar a sua fé, pode constituir-se disseminador do Espiritismo, porque vê cumprir-se o que fora predito.”

Por encontrar no Agostinho de Hipona a predição dos saberes que tanto admiramos no Agostinho da Doutrina Espírita, é que gostaríamos de destacar, nas próximas edições, alguns aspectos do pensamento agostiniano que perduram à ação do tempo e às mudanças sociais; aspectos, em suma, que, inalterados com a sucessão dos dias, continuam a ser expressões da revelação divina, no seu caráter de universalidade e atemporalidade, por reconhecermos que, na vida terrena de Agostinho, possamos encontrar, como ele já nos indica, uma maneira prática de nos libertarmos de nossas dificuldades presentes: Fazei o que eu fazia, quando vivia na Terra...

sábado, 23 de junho de 2012

Pedro e João

Entre os doze apóstolos do Cristo, havia caracteres diversos, com anseios, esperanças e necessidades diferentes. O pequeno grupo formado pelo Messias, há quase dois mil anos na Galileia, é um micro-cosmo da nossa realidade e da nossa sociedade, e o convite feito pessoalmente pelo Cristo se estende até os dias de hoje a cada um de nós: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. No convite aos primeiros discípulos, os evangelhos sinóticos são unânimes em assumir a presença de Simão Pedro e João.
Pedro era o mais velho de todos os doze. Pescador por toda sua vida, casado e com pelo menos um filho, não teve estudos formais; tinha as concepções arraigadas construídas ao longo de sua existência e certa tacanhez na lida com os outros. João, o mais jovem dos discípulos, era também um pescador cheio de vida e entusiamo. De comparações imaginativas, tinha a ambição típica da juventude, e muitas vezes um impulso de ocupar lugares que ainda não lhe cabiam.
Pedro é convidado a seguir Jesus sobre as águas, e caminha sobre elas fascinado por algum tempo, até que o homem velho, levado por suas desconfianças e incertezas que acumulara ao longo da jornada, duvida e afunda (Mt 14:22-32). Recebe a repreensão do próprio Cristo, por ter sido fraco em sua fé. Por outro lado, João, no ímpeto de uma juventude que ainda não compreende a necessidade de se conquistar os próprios méritos, pede ao Cristo que lhe deixe sentar ao seu lado no Reino dos Céus (Mc 10: 35-45); o Rabi responde-lhe, severo, que o mais importante no Reino seria o que mais servisse na Terra.
Pedro, o mais vivido, é sempre o primeiro a questionar o Cristo, pedindo-lhe que explique suas parábolas (Mt 15:15); é quem quer saber se será sete o número limite de perdão às ofensas (Mt 18:21); é quem responde a Jesus sobre a multidão que o cerca no episódio da mulher hemorroíssa (Lc 8:42-48) e, julgando-se detentor da autoridade da senectude, chega a repreender Jesus, quando este declara que o Filho do Homem deveria padecer (Mc 8:30-33). João, ao contrário, tem poucas falas relatadas nos Evangelhos; entre elas, lembramos o momento em que ele relata orgulhosamente a Jesus, como quem busca aprovação, que proibira um homem de curar em Seu nome, sendo admoestado pelo Mestre: “quem não é contra nós, é por nós” (Lc 9:49-50). A personalidade impetuosa de João é provavelmente marcante, pois não seria à toa que o Cristo o chamaria “Filho do Trovão” (Mc 3:17).
Pedro, na entrega absoluta de quem sabe o que espera, oferece a própria vida pelo Cristo (Jo 13:17); afirma, no orgulho dos que já muito viveram, que não se escandalizará por causa do Rabi, mesmo que todos se escandalizem (Mt 26:33), e sofre mordazmente quando percebe sua fraqueza, ao negar o Mestre no momento derradeiro (Mt 26:69-75). João, o único evangelista que relata em seu Evangelho a promessa de Jesus da vinda do Paráclito – o Consolador –, no orgulho da juventude que se julga onipotente, diz a Jesus que ele e seu irmão são capazes de beber do mesmo cálice que o Messias, e de ser batizados pelo mesmo batismo que o Mestre (Mt 20:22).
O Senhor escolheu homens que possuíam defeitos, assim como temos os nossos. E nas mãos desses homens imperfeitos, Jesus colocou tarefas de importância imprescindível para a cristalização do Cristianismo nascente. Na responsabilidade do frágil, e por vezes obtuso Pedro, o Cristo lança as fundações da sua ecclesia – a comunidade de seus seguidores (Mt 16:13-23), devotando-lhe a confiança que o mais experiente de seus amigos merecia: “Tu és pedra, e sobre essa pedra edificarei minha Igreja”. João, o discípulo irrequieto e amado, que deita sobre o peito do Cristo para lamentar pela morte iminente do Messias (Jo 13:23), recebe a incumbência de cuidar de Maria, dizendo-lhe, ao pé da cruz: “Eis aí tua mãe” (Jo 19:27).
Todas as casas espíritas têm “Pedros” e “Joões”.
Em todo ambiente sagrado de trabalho, ocuparemos o papel ora daquele que se arroga em ser possuidor da verdade, ora daquele que deseja o cargo burocrático sem o merecimento da folha de serviço; ora daquele que tem dificuldades no trato gentil com os irmãos da seara, ora daquele que esquece o mais importante pelos festejos excessivos. Cabe a nós seguir o exemplo dos irmãos em Cristo e perceber que a cada um é pedido apenas Reforma Íntima constante e o melhor que temos para dar.
Pedro e João foram amigos desde sua sociedade como pescadores (Lc 5:1-11). O carinho que tinham um pelo outro aparece na última ceia (Jo 13:24-26), no reencontro que ambos tiveram com o mestre logo após a ressureição (Lc 22:7-13) e continua após a partida definitiva do Mestre do plano terrestre (At 3:4, 4:13, 8:14). O sucesso de qualquer empreitada na seara cristã não está na revolução completa das coisas pela juventude que chega, nem na manutenção absoluta das formas de pensar e agir dos trabalhadores de longa data; mas sim na compreensão e na confraternização entre ambos, na troca de experiências e colaboração mútua, caminhando no sentido de perceber que a possibilidade de trabalho e de amor não tem limite nem restrição de idade.



Texto composto a partir de palestra proferida no "I Encontro sem fronteiras do Jovem Espírita", realizado em Poços de Caldas em maio de 2012